sábado, 11 de setembro de 2010

11 de setembro

Me lembro que, há 9 anos atrás, no meio de uma manhã de trabalho, começaram a vir informações confusas sobre os atentados terroristas de 11 de Setembro. Ninguém sabia exatamente o que acontecia - só se sabia que eram muitos os mortos.
Lembro também de termos passado o horário do almoço acompanhando as notícias. As imagens eram chocantes. O pavor e a tristeza estava estampados em todos os canais.
O mundo inteiro se comoveu e chorou ao ver histórias de pessoas que, perante a morte iminente, ainda ligaram para parentes para declarar pela última vez seu amor.
Cerca de 3.000 pessoas perderam suas vidas. Muitas outras vidas mudaram por causa de um 11 de setembro que poderia ser apenas mais um qualquer.
Há 1 ano atrás eu também estava trabalhando. No meio da manhã de sexta-feira, a notícia veio numa ligação de minha mãe: o vô Bruck morreu. Na hora fiquei desorientada, mas consegui fazer perguntas. Perguntei pelo meu pai, como ele estava. Desliguei e liguei para meus irmãos. Ambos reagiram com apenas uma palavra ao receber a notícia: Mentira! Mas quem é que brinca com uma coisa dessas, a Morte?
Muitas ligações depois, malas prontas e lá fomos nós para São Vicente do Sul velar nosso avô.
Muito embora o Seu Bruck não fosse a imagem do avô amigo, que mima seus netos, ainda assim ele era carinhoso. A seu modo, mas era. Não me lembro de demonstrações de afeto tais como beijos e abraços. Os abraços aconteciam quando chegávamos ou partíamos de sua casa. Mas não há quem se esqueça de sua euforia ao saber que os filhos estavam para chegar. Lembro também que, ao chegarmos, havia à nossa espera uma melancia. Na verdade, uma melancia para cada membro da família, sendo que  esta era maior conforme a idade de cada um.
A melancia tinha o nome de seu dono e ele podia comê-la sozinho. E para nós era algo maravilhoso ter uma melancia inteira para saborear. Ele empilhava as melancias sob uma enorme árvore e lá elas ficavam até seu dono chegar.
Àquela época eu não tinha ainda a capacidade de compreender a grandeza desse pequeno gesto. Mas hoje sei que essa era a maneira de meu vô dizer um "Eu te amo e penso em você" sem precisar de palavras. Talvez porque ele era um homem da roça, do interior, de vida difícil, e palavras de amor não lhe sairiam assim tão facilmente. Mas gestos de amor não lhe faltavam.
Seu Bruck era amor ao preparar um churrasco, uma galinhada, ao pouco se preocupar com as marotices que aprontávamos em seu espaço, ao plantar e ao colher melancias. Era mais amor ainda ao colocar nelas o nome de seus filhos e netos, preparando-as para nosso encontro anual.
Por motivos pessoais passei alguns anos sem ver meu vô, mas felizmente tive o prazer de estar ao seu lado em seu aniversário de 80 anos.
Há exatamente 1 ano atrás apenas uma morte causou mudanças na vida de uma grande família. Um 11 de setembro que bem poderia ser igual a qualquer outro tornou-se a tragédia de uma família.
O mundo não se comoveu nem chorou. O mundo sequer foi noticiado de que o Seu Bruck havia morrido. Porém, este 11 de setembro representou muito mais em minha vida do que aquele outro 11 de setembro. Porque em 11 de setembro de 2009 morreu um homem, um marido, um pai, um avô - o meu avô.
Cada um tem o seu 11 de setembro que muito bem pode ter acontecido num 27 de abril, ou até mesmo num 18 de dezembro. E esses onzes de setembro, mesmo que incógnitos, são devastadores àqueles que os vivenciam. E nada pode mudar isso.
E agora, a cada 11 de setembro quando todos estiverem relembrando 3.000 mortes, eu me darei o direito pensar em apenas uma.

4 querendo aparecer:

Ylana disse...

Emocionante.

Laila Paschoal disse...

Kell,
Quando vier me visitar, não terá melancias na minha casa, mas prometo ter (um monte de) cupcakes engordativos.
=)
Um beijo,
Laila

Unknown disse...

Vozão !!

Tenho muita saudade daqueles tempos, que infelizmente não voltam mais.

:(

Carlinha Salgueiro disse...

Que lindo!

Além de tudo, o gesto do seu avô com as melancias foi uma das formas figuradas mais bonitas de dizer "eu amo vocês" que já li em um blog.

No dia 11 de setembro original eu tive que viajar de avião, por volta do meio dia voltava da casa da minha mãe... Só sei que até hoje me lembro como foi estranho ter medo do desconhecido, até a hora do embarque, não sabiamos direito o que estava acontecendo e ainda assim a vida seguia "normalmente" pelos ares...

Beijos!

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