Hoje, no caminho para o trabalho, me deparei com uma moça que vinha na direção contrária. Vi que andava com dificuldade, puxando a perna direita, e o braço direito também pendia, caracterizando um possível AVE ou algo semelhante. E de repente senti dó dela!
5 segundos depois do sentimento de pena, uma voz munida de uma mão me deu um empurrão e gritou “Ei, que que cê tá com pena da menina? Olha esse seu braço torto aí!”. Ok, ok. Pode parar de gritar porque eu já não estou mais com dó, beleza?
A voz me fez parar pra pensar no que senti e percebi que, se eu sentia dó daquela moça, eu também seria digna de pena. Mas eu não sou. Tudo bem que eu faço parte da cota de deficientes da empresa, tudo bem que ainda tem gente que olha as cicatrizes no meu braço e devem imaginar coisas horríveis sobre a história delas, tudo bem que é... eu sou deficiente. Mas quem disse que eu lembro disso todo santo dia? Quem disse que eu acho mesmo que eu seja deficiente? E não, eu não digo que não acredito nessa de eu ser deficiente por me sentir mal com esse título. É que eu nem lembro de mim antes de ser deficiente, portanto, isso pra mim é bem natural. É como se eu tivesse nascido com o braço torto; simples assim.
Refleti por 5 minutos, vida que segue, bora trabalhar. Trabalhar usando o mouse na mão esquerda, claro, porque é uma das adaptações que meu braço direito torto me obrigou a fazer, dentre outras.
Já no trabalho, hora da ginástica laboral. Adoro! Só que hoje a educadora física resolveu reunir todos os exercícios impossíveis pro meu braço direito. É claro que eu me adapto, viro o braço de um outro jeito e o exercício sai. Mas cada exercício era uma nova oportunidade pra ela me mandar esticar o braço ou virar o pulso, movimentos atualmente indisponíveis no menu Função. Mas ela, inconformada com a informação de que o braço não esticava e o pulso não virava – afinal, pra que um braço que não faz isso né? – ainda perguntou “Mas, será que se você fizer esse exercício mais vezes, ele não estica pelo menos mais um pouquinho?”. Não. O braço já tá assim há 29 anos. Depois de 1.287.533 sessões de fisioterapia (mentira, mas foram muitas), até parece que um exercício com um pedaço de cabo de vassoura fará o milagre.
Dado o número de eventos ocorridos em menos de uma manhã que remeteram ao assunto “Deficiência”, venho aqui, como deficiente que sou, falar uma coisa pra vocês: nós somos normais! Eu sei, eu sei. Vocês olham pra gente com a mesma dó que olhei pra moça hoje de manhã, olham com curiosidade mas raramente tem a coragem de chegar junto e perguntar “e aí, o que aconteceu?”. Ao contrário do que vocês pensam, a gente não sofre por falar disso. A gente sofre mais quando não fala, quando não mostra, quando temos certeza de que tem alguém rindo disso, o que acontece muito na infância. E depois que a gente cresce, a gente nem se incomoda mais com as risadas. A gente aprende a rir disso também!
Não só a rir, a gente aprende a conviver com aquilo que somos. Aprendemos a superar limites já que a vida fez a gentileza de colocar alguns obstáculos a mais no nosso caminho. Cada dia, quando você se descobre deficiente, é um aprendizado e uma superação. Aprendemos que o impossível nem sempre é tão impossível assim e que dá pra usar a mão esquerda pra milhares de coisas, mesmo sendo destra.
Se a gente sofre? Lógico. Mas a gente não sofre pra sempre. A gente só sofre até o dia em que a voz começa a gritar no nosso ouvido “larga a mão de ser mole e trate de dar um jeito de fazer isso! Se vira!”. E quando isso acontece, não há ser humano que nos faça desacreditar da nossa capacidade.


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