Amados, vocês vão nascer numa época muito louca. Porque quando eu nasci, não tinha computador, Naruto e As Princesas ainda faziam sucesso separadas. A gente se divertia subindo em árvore, jogando bolinha de gude, tomando banho no açude e juntando vagalumes dentro de potes de vidro à noite. A gente brincava na terra, criava papagaio solto na goiabeira e abelha que vinha todo dia comer mel na janela. A gente tinha estojos e mais estojos lotados de lápis de cor, canetinhas, giz de cera e passávamos horas desenhando casinhas e pessoas. A família toda já foi registrada num caderno de desenho.
A gente também aprontava muito. A mãe dizia pra não correr porque íamos cair, mas a gente corria. E caía. Muito! E a gente chorava. E pra piorar, lá vinha a mãe com Merthiolate, que naquela época ardia muito. Hoje Merthiolate perdeu a graça. Não arde mais e aí o mundo se encheu de emos depois dessa mudança. Porque, filhos, a gente precisa sentir um pouco de dor pra sermos fortes, senão a gente começa a fazer drama por qualquer coisinha e aí dá nisso. Emos.
A gente também desobedecia, coisa que não muda muito de geração pra geração. Mas naquela época não tinha ninguém vindo dizer pro nosso pai e pra nossa mãe que não podia bater na gente não! E a gente apanhou. De chinelos Havaianas, de vara e de cinto. E como doía! Lá vinha a mãe com o chinelo na mão e já chorávamos antes mesmo da surra. E sempre tinha uma varinha à vista pra nos lembrar que era melhor não desobedecer. Mas desobedecer é da natureza de toda criança, e até de muitos adultos por aí.
Vou contar uma coisa... a gente apanhou muito, mas ninguém morreu por causa disso. Ninguém sequer teve que fazer terapia pra superar esse trauma e sabem por que? Porque o pai ou a mãe, antes da surra, se colocavam à nossa frente e explicavam com todas as letras as ótimas razões pelas quais estavam fazendo aquilo. E diziam também que não gostavam de nos fazer sofrer, mas como a nossa desobediência fazia com que outros sofressem, precisávamos de alguma forma sentir pelo que fizemos. E nós sentíamos, chorávamos e às vezes nossa pele ficava marcada por causa da nossa desobediência. Mas tudo isso passava e, de todas as surras, apenas uma coisa ficou: Educação.
Queridos, tem gente aí vindo dizer que eu não posso bater em vocês. Mas já combinei com o pai de vocês que vocês vão apanhar sim. Não porque gostamos de ver criança chorando. A gente adora criança! Mas queremos que vocês sejam boas pessoas para o mundo e, se para isso precisarmos ser um pouquinho mais severos, seremos. E se a gente não puder bater, teremos que educá-los com barganha e chantagem e a chance de vocês se tornarem políticos é muito grande. E isso não é necessariamente ser uma pessoa boa para o mundo. Na maioria das vezes não é.
Filhos, ninguém vai fazer lei dizendo que a vida não poderá lhes dar uns tapas e até umas rasteiras. E os tapas que a vida dá sempre são piores do que qualquer surra de cinto. A vida não faz barganha e não os põe no colo pra negociar pirulitos que vocês ganham se obedecerem. E vocês precisam ser fortes pra esses tapas, pra conseguirem olhar pra frente e prosseguir.
Filhos, ninguém vai fazer lei dizendo que a vida não poderá lhes dar uns tapas e até umas rasteiras. E os tapas que a vida dá sempre são piores do que qualquer surra de cinto. A vida não faz barganha e não os põe no colo pra negociar pirulitos que vocês ganham se obedecerem. E vocês precisam ser fortes pra esses tapas, pra conseguirem olhar pra frente e prosseguir.
Mamãe e papai amam vocês. Até quando vocês foram desobedientes.


3 querendo aparecer:
Me emocionei!
E poutz, eh verdade...como vcs apanharam!!! =/
Mas pra mim, o pior de apanhar era o blah blah blah...
Pela primeira vez na vida eu vejo você tendo razão em alguma coisa...
O surgimento dos emos vem da falta de Metiolate (não precisa corrigir, pois o meu era assim que se escrevia) que ardia. E quando eu me estrupiava eu suplicava para ao invés de usar o metiolate, passar mercurio cromo ( que no final acho que não prestava pra nada além de deixar os machucados todos vermelhos por uma semana ), mas os pedidos geralmente não dava em nada, era Metiolate e sem choro. Aí ao invés de desfilar com machucado vermelho, era laranjinha, pois naquela época metiolate tb tinha cor.
Perfeito!
Vou ter que repassar pra muita gente! Porque te espero na cadeia, também serei presa por bater nos meus futuros filhos!
Apanhei também!
No meu caso, tinham os níveis de surra:
- Tapa e torcida de orelha para o crime leve.
- Chinelo Samoa, quando era falta leve também. Chinelo duro de plástico vermelho (precursor das Havaianas, ou Havaianas mais "chique" que vendia na feira).
- E, claro, o cinto!
- Para as faltas mais graves ainda tinham as surras dada pelo próprio pai, que era quando as mães apelavam para a força maior - o supremo tribunal!
E o "tem que bater mesmo", que comentou acima, lembrou bem, não adiantava barganhar pelo mercúrio não, era merthiolate, simples assim, sem conversa!
E eu não morri por causa disto. Agradeço à minha mãe por todas as surras que levei!
Beijos!
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