terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Vivendo e aprendendo

Ontem, depois de mais um dia de trabalho, a Josi apareceu. Queria sair, fazer alguma coisa pra se distrair.
Entramos no carro, sem direção certa, e acabamos num shopping, como todo bom paulistano (embora não sejamos paulistanas, mas já estamos aqui há tempo suficiente pra termos sido contaminadas), e vamos nós bater perna.
Depois de um pouco de andança, nos sentamos na praça de alimentação. Só pra conversar. Mas uma boa conversa pede um milkshake de ovomaltine. Compra milkshake então. E a conversa continua.
Nós duas nos encontramos num momento, digamos, desanimador de nossa vida. Quando adolescentes, tínhamos milhares de planos e todos com data marcada. Ela estaria casada aos 18 anos. Eu, lá pelos 22. Ela já teria uns 5 filhos (adora crianças!) e eu no máximo 2. NO MÁXIMO! Ela moraria na praia. E eu sei lá onde porque não pensei nisso. Ela trabalharia em algo que lhe permitisse ter tempo pra se dedicar aos seus 5 filhos. Eu já não tenho essa pretensão de cuidar de crianças, então vou rever meus planos (até agora frustrados) de começar a procriação.
Nossa conversa envereda pro pior lado: a reclamação. Mas eu ainda tento analisar as coisas sob outra ótica, falando sobre os planos que ainda podemos fazer e realizar. Se não casarmos, não tivermos filhos, ainda podemos nos dar bem profissionalmente, metermos a cara no trabalho e esquecer o resto. Tá. Simples assim. Mas a Josi não se animou com meu discurso. Tá entregue mesmo.
Depois de algumas horas de conversa, hora de voltar pra casa. Mais uma noite gelada no verão estranho de São Paulo, e agradeço a Deus pela minha cama, pelo travesseiro e pelas cobertas tão quentinhas. Agradeço pela energia elétrica que me proporcionou um banho extra-quente. E fico triste por todas aquelas pessoas que não têm este privilégio...
Terça-feira. Acordo cedo, tomo meu banho quentinho, visto o roupão e vou tomar meu café da manhã. Dez lichias (ô frutinha deliciosa viu?) e um prato (não muito cheio) de sucrilhos com leite e uma banana picada. Assim sobrevivo até a hora do almoço.
Calça jeans, regatinha por baixo de uma blusa de frio, mais uma jaqueta pra garantir, meias e bota. Arrumo a bolsa (é duro ser mulher!), me armo do guarda-chuva e lá vou eu pro trabalho. A pé. Não dirijo, não quero dirigir e sequer terei carro. Trabalho perto de casa.
Gosto de andar pois é o momento em que consigo pensar na vida. E lá vou eu trabalhar pensando na conversa de ontem.
Quando estava quase na portaria da empresa, eis que a vida resolve me dar uma lição: do meio de meus pensamentos sobre tudo que ainda não fiz, vejo do outro lado da rua um casal de idosos, acompanhados de uma moça, aparentemente vítima de uma paralisia cerebral. A senhora tinha a pela toda manchada devido ao vitiligo. Mancava um pouco, talvez consequência da idade. E lá iam eles, debaixo de garoa, pra alguma lugar que não imagino onde seja.
Fico triste. Por mim e por eles. Mais por eles do que por mim.
Se aquela moça é filha deles, provavelmente fizeram inúmeros planos pra ela. Ela seria bonita, inteligente, a melhor aluna da sala e um dia faria uma faculdade, coisa que eles nunca imaginaram fazer. Ela se casaria com um bom rapaz, teriam filhos e, aos domingos, almoçariam todos juntos na casa dos avós. Se reuniriam em datas especiais, e assim seria a vida.
Aí vem o parto e a descoberta. Talvez uma hipóxia e o diagnóstico que mudaria todos os planos. Uma vida de dependência e duas vidas totalmente entregues ao amor incondicional, à dedicação e à busca, quem sabe, da cura. E a cura não existe.
Depois do choque, volto aos meus pensamentos. No que eu pensava mesmo? Deixa pra lá...
Mais uma vez agradeço a Deus. Não por haver pessoas com mais motivos para o desânimo do que eu. Agradeço porque minha vida é maravilhosa. Por todas as bençãos que recebo todos os dias, sem sequer merecer, e que, por não serem tão óbvias quanto a cama quentinha ou o sucrilhos com leite, não agradeço.
A vida ensina. A gente aprende se quiser.

1 querendo aparecer:

Anônimo disse...

Mto bom o Post Kell...fiquei pensando na minha própria vida... inevitável neh!

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